sábado, 25 de agosto de 2007

A comunicação que precisamos

No final da década dos setenta e começo dos anos oitenta, a opção pelo jornalismo significava, quase necessariamente, uma opção pela esquerda. No enfrentamento à ditadura militar e à censura, o simples ato de reportar os fatos proibidos constituía uma subversão, uma afronta à ordem instituída. Não era necessário discutir o que fazer na arena da comunicação. Era preciso fazer.
A esquerda, então, criticava a grande imprensa por ser um aparelho ideológico da burguesia, um instrumento do Estado capitalista ou, no cotidiano das redações, estar submetida à vontade e aos interesses dos anunciantes. Os publicitários e as agências de publicidade, em ascensão, eram vistos como instrumentos da direita. Ser publicitário recomendava mal politicamente e a sua segregação no campo conservador começava já nas faculdades.
Hoje, ainda encontramos os que dizem ser o departamento comercial o câncer da imprensa e o assassino da verdade, mas cada vez mais são os anunciantes que dependem dos meios de comunicação de massas para vender seus produtos e não o contrário. Também há os que vêem os meios de comunicação como uma extensão do Estado. Entretanto, fica cada dia mais difícil manter esta visão porque os meios de comunicação, assim como constróem, liqüidam políticos tradicionais em questão de meses sem se preocupar se estão ou não em postos chaves.

Construindo seus próprios caminhos
São mais numerosos os que entendem os meios de comunicação de massa como instrumentos de dominação de classe ou aparelhos no interior dos quais se deveria travar uma disputa de rumos e ocupação de espaços. Mas também cresce a percepção de que, da mesma forma que os fins não justificam os meios, não é possível chegar a um destino próprio por caminhos alheios.
Neste quadro, em geral, poder-se-ia afirmar que, desde um ponto de vista ou de outro, a esquerda brasileira, na prática, desenvolveu uma relação utilitária, instrumental, com a comunicação nas últimas décadas. A força de suas teses, fizesse o que fizesse no terreno da comunicação, sempre permitiu um maior crescimento. O fato do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, não ter conseguido firmar um jornal de caráter nacional, ainda que este tenha sido um objetivo reiterado em encontros e congressos, nunca o impediu de crescer, ano após ano. Já o Movimento Sem Terra, que sempre investiu numa imprensa própria, relativamente bem mais que o PT, não deve a isso o seu crescimento. O peso e a ampla presença do MST na opinião pública nacional não vêm daí, mas da sua capacidade de gerar fatos jornalísticos emblemáticos, como as ocupações e as caminhadas, e com isso ocupar espaços editoriais amplos e dialogar com parcelas expressivas da sociedade.
Essa relação de uso dos meios de comunicação vem revelando no último período os seus limites. De um lado, a esquerda não tem conseguido inovar em suas táticas de comunicação. De outro, a direita já conseguiu decodificar, neutralizar e absorver as técnicas de comunicação desenvolvidas pela esquerda desde o fim da ditadura.

Perseu Abramo
A maior clareza sobre os limites da visão instrumental da comunicação vem possibilitando abrir um amplo campo de questionamentos. Muitos já se perguntam se não seria o momento de construir uma nova política de comunicação que supere a visão instrumental e aparelhista. Questionam se não seria o caso de repensar seriamente a estrutura de comunicação que existe no país e construir desde hoje uma alternativa.
Perseu Abramo, num artigo escrito em 1988, em meio ao debate da Assembléia Nacional Constituinte, desnudava os novos contornos dos meios de comunicação de massas no Brasil redemocratizado. Conforme Abramo, uma das principais características da imprensa de então era a manipulação das informações, sendo o “efeito dessa manipulação” o fato dos órgãos de imprensa não refletirem a realidade. De acordo com o artigo, os órgãos de imprensa “se não são partidos políticos na acepção rigorosa do termo, são, pelo menos, agentes partidários, entidades para-partidárias”.(1) Abramo percebia estas características da imprensa de então como uma tendência histórica e, ainda que algumas de suas teses tenham perdido atualidade, a realidade posterior veio confirmar o principal de suas análises.
Os meios de comunicação de massa lideraram a onda neoliberal e a imposição do pensamento único no Brasil no final do século XX. Deve-se à sua capacidade de manipulação da realidade, analisada por Abramo, a eleição de dois presidentes (Fernando Collor de Melo em 1989 e Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998) e a transformação da luta democrática das Diretas Já dos anos 80 em espetáculo global de caras pintadas nos anos 90. Com sua atuação posicionada, parcial, comprometida e normalmente distanciada da ética, a mídia promoveu o isolamento de todos os setores políticos mais à esquerda no país. Isolamento que se expressa com nitidez no caso do MST, por exemplo, mas que se reproduz em relação a todos os setores considerados radicais, dos “xiitas” do PT aos nacionalistas das Forças Armadas.
Não é difícil perceber, numa sociedade como a nossa, onde é essencial a qualquer projeto político sério a sua exposição através de meios de comunicação de massa como condição para a sua existência, que o destino de todos foi o seu enquadramento nas regras do jogo da comunicação, determinadas pelos detentores dos seus meios de produção. Daí a concluir ser praticamente impossível qualquer avanço importante no país sem uma mudança estrutural nesse cenário é uma decorrência lógica. E se propor a alterar os posicionamentos até hoje dominantes na esquerda a respeito do assunto uma obrigação.

Uma ruptura onde ela é necessária
Abramo tentou fazer isso. Ele via naquelas características dos meios de comunicação de massa um processo de passagem de instituições da sociedade civil para a sociedade política, a sua transformação em partidos de tipo especial. E propunha a criação de um outro sistema de comunicação no país, onde os meios de massa fossem propriedade de instituições de caráter público. Livre do domínio privado, submetido ao interesse público, o novo sistema voltaria ao verdadeiro jornalismo e à objetividade.
O PT, nem ninguém na esquerda, nunca adotou esta proposta e limitou a sua ação nas últimas décadas à defesa retórica da democratização dos meios de massa. De fato, olhando retrospectivamente, vê-se que as posições de Abramo eram de difícil realização. Não levavam em conta o cenário internacional adverso e operavam a partir de bases questionáveis.
Nosso sistema de comunicação foi construído à base de concessões a políticos e empresários conservadores, de subsídios e verbas publicitárias governamentais distribuídas a dedo. Ou seja, o sistema de comunicação realmente existente nunca fez parte de uma sociedade civil digna deste nome no país, até porque a sociedade brasileira nunca teve capacidade e força para isso. Imaginar a construção de um novo sistema público sobre essa herança era um objetivo difícil. Contudo, Abramo, já em 88, propunha uma ruptura onde ela é necessária. Na compreensão que a esquerda brasileira tem do tema das comunicações.
As reiteradas declarações em favor da democratização dos meios de comunicação de massa, ainda que necessárias, não são suficientes. No mais das vezes, publicadas nos espaços editoriais dos jornais, têm servido apenas para dar uma aparência democrática e legitimar aqueles que operam as políticas de concentração e monopolização ainda maior dos meios de comunicação. Passados mais de vinte anos desde que o jornalista e dirigente petista propôs um outro caminho, ninguém ainda parece saber direito o que fazer. Mas uma certeza existe: a comunicação que precisamos, definitivamente, não é essa que está aí.

É possível um sistema independente de comunicação
As pequenas vitórias em termos de comunicação, ocupando espaços e janelas às vezes propositalmente entreabertas já não escondem a crescente insuficiência de uma comunicação sob estreita vigilância dos donos dos meios de comunicação de massa a ditarem quem pode e quem não pode falar, o que pode e o que não pode ser dito.
O que hoje se faz necessário é a construção de uma outra política de comunicação, livre de preconceitos, capaz de resolver um problema evidente na esquerda brasileira: o problema decorrente da ausência de uma comunicação muito maior, de cima para baixo e de baixo para cima, no campo alternativo ao neoliberalismo no Brasil.
Solução para o problema existe. Contudo, é fundamental primeiro uma mudança no campo das idéias. É preciso que a esquerda se desvencilhe de suas velhas teses e chavões, pare de pensar que os jornais e TVs deveriam ser neutros e isentos, ou então que os meios de comunicação de massa seriam uma espécie de parlamento ao qual se deveria levar boas matérias. As teorias à gauche, até aqui, se foram capazes de tirar a esquerda das prisões da ditadura e permitiram conquistas fantásticas como o PT e o MST, por um lado, pelo outro foram insuficientes para impedir seu aprisionamento num mundo ainda mais perverso: o mundo construído pela mídia.
Uma pista para pensar a construção de uma nova política de comunicação no campo alternativo ao neoliberalismo talvez possa ser o entendimento de como se deu a construção do Partido dos Trabalhadores, articulando diversas correntes e setores preexistentes na sociedade brasileira. A idéia de uma associação de milhares de iniciativas de comunicação, em atuação junto aos movimentos de esquerda e sociais no país, potencializando-as num sistema nacional.... A idéia de que é possível construir um sistema independente de comunicação, eficaz, capilarizado.... De que é possível reunir experiências, acúmulos, compreensões e teorias diversas num mesmo organismo, onde todos contribuam sem ser preciso abrir mão de suas convicções senão pelo convencimento.... Tudo isso hoje pode vir a se tornar possível.
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(1) Abramo, Perseu. 1929-1996. Um trabalhador da notícia: textos de Perseu Abramo. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo,1997.